
Caramba, há muito tempo não dou as caras por aqui. Estou trabalhando demais e jogando de menos, o que não me dá muitas notícias a serem comentadas. Estamos na correria do primeiro aniversário da Amazon Poker no dia 13/03 quando teremos o maior torneio já visto em Manaus, com premiação garantida de 35K.
Mas vim aqui para comentar sobre um tópico que já é motivo de discussão há tempos e vez ou outra é levantado no fórum, que é a possibilidade de alguém vir a ser profissional do poker em Manaus. Alguns argumentam que não é possível jogar poker profissionalmente na capital amazonense, enquanto alguns poucos defendem a real possibilidade disso ser algo factível. Como defensor dessa segunda hipótese, irei aqui argumentar a favor da mesma. Para não ficar complicado, vamos por partes.
1. O que é ser um profissional do poker?
A definição de profissional é ” 1. Respeitante ou pertencente a profissão, ou a certa profissão; 2. Que exerce uma atividade por profissão ou ofício;3. Diz-se do que é necessário ao exercício de uma profissão, ou próprio dela; 4. Deprec. Diz-se de pessoa voltada habitualmente para certa atividade como se fosse ela ofício ou profissão; 5. Bras. Pessoa que exerce uma atividade por ofício.”, segundo o dicionário Aurélio. Logo, um profissional do poker seria o cara que faz dessa atividade o seu ofício e dela tira o seu rendimento. É importante definir isso porque algumas pessoas acreditam que profissional é “aquele cara que joga bem pra caramba” e só isso.
2. Rendimentos
O rendimento no poker live irá depender de uma série de fatores. Podemos citar como mais importantes a) o nível técnico do jogador; b) os valores das mesas em que ele joga; c) o seu bankroll; d) o tempo de jogo; e) a variância. Isso irá fazê-lo ter um PTBB/100 mais ou menos elevado. Observamos, portanto, que um jogador com um bankroll sólido jogando na NL500 e mantendo um PTBB/100 médio irá obter ao fim do mês um rendimento satisfatório, principalmente considerando que no live o estilo dos jogadores é bem loose, o que faz as jogadas serem bem +EV, elevando a rentabilidade de cada mão.
Porém em rendimento há uma questão subjetiva: qual é o rendimento que cada um considera o suficiente para viver? Ora, para alguns que já têm um bom emprego, empresa e, além disso, tem família para sustentar e uma pá de contas a pagar, esse valor será maior que o de um jovem universitário solteiro. Então não adianta querer comparar alhos com bugalhos. Para alguns uma renda na faixa de 2K/mês é mais que suficiente, enquanto para outros isso não paga nem metade do custo fixo. Essa subjetividade é que faz com que alguns defendam arduamente que é impossível se manter do poker em Manaus.
3. O Risco
Em momento nenhum, que fique claro, eu advogo que essa é uma profissão sem risco. É arriscado, claro! Porém se um cara se dispõe a viver de jogar poker ele deverá ter esse risco em conta e saber administrá-lo. Obviamente qualquer um que jogar fora do bankroll estará arriscando muito mais que uma sessão, se estiver na busca pela profissionalização. Porém se o jogador souber administrar bem o seu BR e jogar dentro dos limites compatíveis com este, sendo um bom jogador será muito difícil não ser lucrativo nas mesas.
O outro risco está na própria natureza da atividade. Como todos sabemos, o poker ainda não é reconhecido formalmente pelas autoridades jurídicas do país. Isso ainda irá render muito até conseguirmos a legitimização de nosso game, mas acredito que com o tempo conseguiremos, haja vista os contínuos esforços de todos.
4. O mercado
Alguns dizem que Manaus ainda não tem estrutura para alguém viver de poker. Ora, é muito fácil discordar disso. Vamos comparar com São Paulo. Por aquelas bandas todos os dias alguém encontrará uma mesa onde poderá jogar, em diversos valores. Também há vários torneios, mas eu não os estou considerando nessa análise como um todo. Lá você encontra desde NL100 até NL10K. E por aqui? Bem, decerto que você achará todos os dias mesas entre NL50 e NL500. Agora vem a seguinte questão: No live, alguém joga multitable? Não que eu saiba. Então se você sempre encontrará uma mesa onde jogar em Manaus, o que o diferencia tanto de outros Estados ou países? Somente os níveis (técnico e de valores de mesas) e a rotatividade de jogadores.
5. O nível dos jogadores
Alguns dizem que não há ninguém em nossa terra que tenha “jogo suficiente” para fazer disso sua profissão. Mais uma vez, discordo totalmente. O poker é um jogo onde você não precisa ter edge sobre todos os jogadores, mas sim sobre a maior parte da mesa. Se você for um jogador bom, mesmo sem ser um “tubarão”, você ainda terá muitos fishes para stackar. Obviamente o jogador profissional deve viver em constante evolução, mas ele sequer precisa ser o melhor da mesa para ser lucrativo. Ele precisa ser constante, sabendo minimizar as perdas e maximizar os lucros. É claro que se o sujeito for um donkey ele não terá mesmo como ganhar, mas, nesse caso, ele não deve nem pensar em dar um passo desses sem antes melhorar seu jogo.
6. Disciplina
O cara que vai viver do poker deve ter, antes de tudo, disciplina. Tanto para não fugir do seu bankroll, como para manter um ritmo de constante aprendizado e também estabilidade emocional. Se o sujeito for indisciplinado com dinheiro, estudos, tilt, então ele estará atrapalhando muito o seu próprio crescimento e é recomendável que procure uma profissão onde fique menos a mercê de sua personalidade.
7. Online
A maior parte dos jogadores profissionais de poker vive do online. Ali a qualquer momentos há salas para todos os níveis de BR. Além do quê, na net há uma infinidade de instrumentos que ajudam o jogador a evoluir tecnicamente, como fóruns, vídeos, artigos em blogs, softwares, etc. Dizer que em Manaus não dá para viver do poker é o mesmo que falar que em nenhum local do mundo é possível. Agora uma coisa é certa: o jogador que se dispor a ser pro de poker online terá que estudar MUITO mais que um de poker live. Em contrapartida, no longo prazo os resultado$ serão mais interessantes também.
8. Considerações Finais
Entendam uma coisa: eu não estou INCENTIVANDO, INDUZINDO, ou INFLUENCIANDO ninguém a largar tudo para viver do poker. Estou apenas apontando um ponto de vista no qual acredito, e que é baseado em observações de um bom tempo nesse meio. Alguns irão usar aquele famoso “argumento”: “Ah, se é assim, porque tu não larga teu trabalho para viver de poker?”. Isso já foi explicado acima: eu tenho um emprego estável, sou concursado, tenho uma renda que atende minhas necessidades. Para largar tudo pelo poker eu teria que obter neste um rendimento superior ao meu emprego seguro, porque estaria arcando com os riscos. Além disso eu teria que construir um bankroll sólido o bastante, porque para superar meus rendimentos eu teria que jogar no maior nível da cidade. Como não disponho de tempo para isso, não irei viver de “dar tiros”. Além do mais ainda tenho muito a melhorar no quesito estabilidade emocional, que é o meu calcanhar-de-aquiles.
Resolvi escrever este artigo porque não concordo com o discurso politicamente correto, mas tecnicamente errado. É muito mais bonito dizer “pessoal, não se iludam, aqui ainda não temos uma estrutura que proporcione a profissionalização e quem embarcar nessa estará se prejudicando”. Porém não é de todo verdade. O poker só é jogado por maiores de idade, então o cara deve saber muito bem onde seu sapato aperta. Se o meu sapato aperta em alguns locais (pouco tempo, pressão familiar, descontrole emocional) que não me permitem largar tudo para ser poker player pro, eu não irei usar meu exemplo como verdade absoluta. Eu vejo alguns caras que têm um puta potencial e já estão fazendo uma boa grana com os games. Porém ainda pecam bastante, jogando fora do BR, má administração dos ganhos, tudo por pura empolgação. Não são jogadores geniais, mas estão bem acima de nossa média (que, convenhamos, é baixa) e isso já basta para que façam constantes altas. Obviamente alguns tombos são inevitáveis, mas, fazendo tudo certinho, sempre terão força para levantarem-se.
É isso.